Desafios para implementar telemedicina e home care foram destaques

Talk show levantou discussões sobre a necessidade de investimentos para ampliação do acesso à saúde e os gargalos que atrapalham o progresso de novas tecnologias

O talk show Telemedicina e Home levantou discussões de grande valia para o setor médico-hospitalar. A palestra que aconteceu durante a sexta edição do CIMES, nesta quinta-feira (17), foi moderada por Eduardo Jorge Valadares, coordenador de Infraestrutura da EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), e contou com a participação de Luiz Fernando Reis, diretor de ensino e pesquisa e coordenador do programa de pós-graduação do Hospital Sírio-Libanês, e Rens Koele, do Consulado da Holanda, como convidados.

Segundo Valadares, hoje a telemedicina segue avançando graças ao conhecimento tecnológico que o país já oferece, mas as questões legais dificultam os processos. “Os grandes limitadores são a questão regulatória e o modelo de remuneração”, comenta sobre o fato de, no Brasil, a telemedicina ser autorizada apenas para o contato entre dois profissionais de saúde, jamais entre médico e paciente.

Levantando mais discussões, Luiz Fernando comentou sobre os desafios do Brasil para implementar a telemedicina. “Um dos grandes desafios é como vamos coletar dados para acompanhamento dos pacientes sem que eles venham a um posto de saúde. Em uma organização que faça a atenção primária, como vou prover ao médico as informações que ele precisa para evitar que o paciente procure a alta complexidade?”, ressaltou. Reis enxerga a telemedicina como uma grande oportunidade, já que existem indústrias capacitadas no país para suprir a demanda. “O CFM (Conselho Federal de Medicina) ainda não permite a telemedicina, mas existem casos de grande sucesso no país cuja gestão da fila é feita graças à telemedicina, evitando que os pacientes alcancem a alta complexidade”, pontuou.

Outro grande desafio citado pelo diretor de ensino e pesquisa do Hospital Sírio-Libanês é a obtenção de dados dos pacientes e como transmiti-los com segurança. “É preciso uma mudança cultural que está por trás do processo assistencial, além do engajamento e empoderamento do paciente. Saber que os dados que estou coletando são fidedignos e confiáveis. Os sistemas como um todo têm que trazer a confiança de que, com o monitoramento, não estou expondo o paciente a riscos”.

Durante o talk show, Rens Koele apresentou alguns exemplos de modelos em prática na Holanda que tiveram efeito positivo. Reconhecidamente um dos países europeus que mais investem na saúde da população, cuja longevidade já ultrapassa os 80 anos de idade, a Holanda empregou, em 2015, mais de 70 bilhões de euros em seu sistema de saúde, e já é considerado o terceiro maior exportador mundial de produtos de tecnologia médico-hospitalar.

Similarmente, o sistema de gestão de saúde holandês foi considerado o melhor do continente europeu pela sexta vez, segundo o Euro Health Consumer Index. “Estamos na Quarta Revolução Industrial. A introdução do carro não foi fácil, e agora também não está sendo um processo fácil. Estamos fracassando muito, mas, para ter sucesso, é preciso experimentar, por isso estamos na fase de cair e levantar. Temos projetos que se mostram de muito sucesso”, contou Koele.

Segundo ele, sem a junção do governo de instituições de fomento à tecnologia, projetos de assistência à saúde não se concretizam. “Governos têm papel importante, não se precisa investir somente em startups e depois não tocar mais no assunto. Depois se tem vários programas parados. A Holanda decidiu criar sistemas para juntar regiões e uni-las nacionalmente, além disso fizemos um investimento em startups, mas em startups que trouxessem benefícios para o sistema”, pontua.

Em 2019 o país pretende investir para que os pacientes com doenças crônicas ou idosos tenham acesso a telemedicina ou teleconferência – esse é o ponto mais difícil de se implementar.

Home care

Já em relação ao home care, Koele comentou sobre o projeto Cuidador do Bairro, sistema que consiste em um grupo de 4 a 12 enfermeiros que cuidam de pacientes com doenças crônicas ou idosos em cada município ou bairro. Ele defendeu ainda a remuneração por resultado e não por consulta. “O dinheiro gasto por médicos fazendo muitos exames sem interligação precisa ter a recompensação por resultado, e não por consulta. Essas mudanças vão fazer a diferença; precisamos experimentar, errar, colaborar. Interligação de conhecimento é fundamental.”

O Sírio-Libanês vem trabalhando e testando de forma pontual os modelos de tecnologia aplicáveis ao home care, como garante Reis. “É necessário que o paciente permaneça o tempo estritamente necessário no hospital, mas que posteriormente possa ser monitorado a distância, especialmente no caso de tratamento de doenças crônicas”, finalizou.