Segundo dia começa com debate sobre a agenda tecnológica setorial

O segundo e último dia do 4º CIMES (Congresso em Inovação de Materiais e Equipamentos para a Saúde) começou com a mesa de debate Agenda Tecnológica Setorial, que reuniu representantes da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e representantes do governo federal que identificaram os avanços e desafios da indústria nacional com a captação de recursos e regulamentações para terem seus produtos regulamentados e disponíveis no mercado.

Maria Luiza Leal, diretora da ABDI, iniciou o debate traçando o atual panorama de tecnologias emergentes que podem ser subsidiadas para aumentar a competitividade da indústria nacional. “A agência vem desenvolvendo, há alguns anos, análises para identificar tecnologias em potencial para os próximos 15 anos, embora não tenhamos nenhuma influência macroeconômica para melhorar a competitividade da indústria”, pontuou.

As agendas tecnológicas setoriais foram criadas como instrumento da política industrial e da política de ciência, tecnologia e inovação para subsidiar a elaboração de agendas setoriais voltadas para o desenvolvimento tecnológico e de promoção da inovação. Para que isso ocorra, a ABDI identificou sete tecnologias relevantes para a competitividade no complexo da saúde: biofármacos (monoclonais e proteínas recombinantes); nanotecnologia (medicamentos e materiais); órteses e próteses; equipamentos médicos para diagnóstico por imagem e in vitro no local; telemedicina regenerativa (terapia celular e gênica, bioengenharia tecidual); e telemedicina. Segundo Maria Luiza, essas prioridades foram definidas a partir de análises de tendências da medicina e do complexo industrial para os próximos 15 anos.

“Temos perdido a intensidade do parque tecnológico brasileiro. Produtos de médias e altas intensidades têm perdido capacitação. Toda política visando intensificar esse nível tecnológico é necessária para mudar esse perfil da indústria. Os objetivos das ATSs (Agendas de Tecnologias Setoriais) é posicionar com capacidade de mexer na estrutura da indústria”, prosseguiu com sua análise Maria Luiza Leal.

Um dos desafios identificados no plenário por Valdênio Araújo diz respeito a uma maior participação da indústria nacional, em especial no próprio mercado interno. Atualmente, os equipamentos estrangeiros representam 56% do mercado brasileiro. “Quando analisamos o que é produzido no Brasil, vemos que há uma produção baixa. Precisamos aumentar a produtividade industrial para que as indústrias nacionais se apropriem do mercado interno. Se exportar é um desafio, e sabemos disso, apropriar-se do mercado interno é fundamental”, avaliou Valdênio Araújo.

O analista de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, Rodrigo Alves Rodrigues, apresentou algumas iniciativas pioneiras e os aspectos éticos, normativos e regulatórios em Telemedicina. Ele citou justificativas para o investimento em ATS nessa área: “Os agravos infectocontagiosos (velho-novos) e materno-infantis, as doenças crônicas, transmissíveis ou não (envelhecimento) e a longevidade progressiva são exemplos”, disse.

Ainda segundo ele, sensores de presença ligados a centrais de monitoramento à distância, robôs que integrem videoconferência, múltiplos dispositivos biomédicos e tecnologias baseadas na ‘Internet das Coisas’ são tendências tecnológicas irreversíveis.

Para que haja esse incremento necessário à maior produção nacional, Joselito Pedrosa, representante do Ministério da Saúde, identificou em sua palestra pontos necessários a serem postos em prática pelas empresas. “Temos a regulação como instrumento de incentivo à política industrial de inovação. Para melhorar esse cenário, é necessário que haja uma parceria maior entre empresas e universidades e centros de pesquisas, mapear as competências tecnológicas do país, estimular a interação e o intercâmbio tecnológico entre os setores industriais, criar ‘integradores de tecnologia’, aumentar a participação da comunidade científica na discussão da regulação do setor com câmaras técnicas, gerar maior concorrência para aumentar a competitividade, avaliar os custos e riscos da implantação de novas tecnologias”, pontuou.

“O que não podemos é esperar que o governo faça tudo e financie tudo. Precisa haver o consenso de que o governo não resolverá todos os problemas a todo o momento. Somente com esse entendimento entre os agentes envolvidos que o Brasil mudará de patamar”, prosseguiu em seu discurso o representante do Ministério da Saúde.

Presente no painel, Paulo Wincheski, da IOL Implantes, cobrou uma abrangência maior de produtos a serem comprados pelo governo, maior comprador de produtos de saúde do país. “A tabela de produtos, além de não ser corrigida, não inclui novos produtos há muitos anos. Não vemos incentivos de desenvolvimento de novos produtos, pois para inovar alguém precisa adquirir essa inovação e gerar demanda”, questionou.

Joselito Barbosa explicou que para haver novas incorporações são necessários estudos e análises do governo para identificar a necessidade de adquirir ou não novos produtos. “Existe um processo de incorporar novas tecnologias em andamento”, disse sem entrar em detalhes de em quanto tempo a nova tabela estará disponível. “Mas não basta desenvolver a tecnologia, tem que se analisar a necessidade e o custo orçamentário para que seja incorporada. Cabe a discussão de como incorporar novos produtos no sistema de saúde. Agora, com relação ao mercado, não dá para pensar em tecnologia somente pensando no mercado nacional. Precisa-se olhar internacionalmente em mercados potenciais, como países da América Latina e África”, afirmou.

Para o moderador do debate, Renato Zangaro, Pró-Reitor de Pesquisa e Pós Graduação da Unicastelo, o quadro atual aponta para gargalos econômicos e políticos, sendo que os mais críticos no curto prazo referem-se a investimentos em formação de recursos humanos e infraestrutura. No médio prazo, os aspectos mercadológicos, em conjunto com a regulamentação, passam a ser imprescindíveis para a inserção de empresas nacionais no mercado externo.

Dentre as prioridades de longo prazo, destacam-se os aspectos éticos, considerando implicações na saúde, segurança, meio ambiente e jurídica, incluindo também esclarecimentos à sociedade.

“Em síntese, o desenvolvimento e completa consolidação dos setores envolvidos em nanobiotecnologia dependem de ações estratégicas e da criação de políticas específicas para fomento, gestão e comercialização de bens, produtos e processos relacionados ao tema”, finalizou.